Ahá!

Descobri por que não consigo andar pra frente lendo Proust (cheguei a uma média ridícula de 3 páginas por dia).

O livro é todo uma grande reflexão sobre memória, sobre sensação e lembrança, sobre literatura. A cada parágrafo (imenso, os parágrafos dele são imeeensos), eu me pego olhando pela janela do ônibus e viajando looonge, longe. Como é difícil focar depois de ler certas coisas! E a narrativa dele é tão etérea, tão fluida, que é quase uma hipnose que vai te levando para as suas lembranças, para as suas sensações, para o seu stream of consciousness. Pra mim é impossível ler o livro sem me pegar indo para vários momentos da minha própria vida, e isso é muito engraçado, porque o que acontece com as minhas ideias é justamente o modo como ele narra as dele – uma coisa leva à outra e a linearidade da história se torna totalmente secundária. O livro tem me lembrado muito A Árvore da Vida, que acho que tem uma proposta muito parecida de misturar narrativa e sensação. Me dá muita vontade de escrever e aí eu começo a escrever mentalmente e lá se foi meu tempo de leitura.

Essa foi a última passagem que me deixou pensativa. Ela fala muito sobre a experiência pela leitura, um tema que estudamos exaustivamente em Letras (♥).

Depois dessa crença central que, durante a leitura, executava incessantes movimentos de dentro para fora, em busca da verdade, vinham as emoções que proporcionava a ação em que eu tomava parte, pois aquelas tardes eram mais povoadas de acontecimentos dramáticos do que, muitas vezes, uma vida inteira. Esses acontecimentos eram os que sucediam no livro que eu lia; na verdade, as personagens a quem afetavam não eram ‘reais’, como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou o infortúnio de uma personagem real só se produzem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; todo o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que, sendo a imagem o único elemento essencial na estrutura de nossas emoções, a simplificação que consistisse em suprimir pura e simplesmente os personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, percebemo-lo em grande parte por meio de nossos sentidos, isto é, continua opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não pode levantar. Se lhe sucede uma desgraça, esta só nos pode comover em uma pequena parte da noção total que temos dele, e ainda mais, só em uma pequena parte da noção total que ele tem de si mesmo é que sua própria desgraça o poderá comover. O achado do romancista consistiu na idéia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde esse momento, já não importa que as ações e emoções desses indivíduos de uma nova espécie nos apareçam como verdadeiras, visto que as fizemos nossas, que é em nós que elas se realizam e mantém sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas, o ritmo de nossa respiração e a intensidade de nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, cada emoção é duplicada, e em que seu livro vai nos agitar como um sonho, mas um sonho mais claro do que aqueles que sonhamos a dormir e cuja lembrança vai durar mais tempo, eis que então ele desencadeia em nós, durante uma hora, todas as venturas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais levaríamos anos para conhecer na vida, e outras, as mais intensas dentre elas, jamais nos seriam reveladas, pois a lentidão com que se processam nos impede de as perceber (assim muda nosso coração, na vida, e esta é a mais amarga das dores; mas é uma dor que só conhecemos pela leitura, em imaginação; porque na realidade o coração se nos transforma do mesmo modo por que se produzem certos fenômenos da natureza, isto é, com tamanho vagar que, embora possamos ver cada um de seus diferentes estados sucessivos, por outro lado escapa-nos a própria sensação da mudança).

*imagem linda daqui.

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6 thoughts on “Ahá!

  1. Para não causar (mais) discórdia, eu vou comentar bem superficialmente aqui e guardar o resto para depois: eu não consigo ler esse parágrafo sem encará-lo como uma espécie de homenagem à psicologia da época, as referências a uma certa teoria estão adequadas demais para serem coincidência.

    • A velocidade é muito indicativa! Principalmente da relação que você estabelece com o que está lendo. O que ela não é, definitivamente, é um termômetro de qualidade do livro! Isso jamais! :)

      • Pois, o tempo é que mede a qualidade do livro. A velocidade depende de muitos fatores, nomeadamente se és obrigado a lê-lo, ou se o queres ler com mais sabor.

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