Madeleines

Comecei a ler No caminho de Swann (escolhi a tradução do Mário Quintana!) na semana passada e hoje, no ônibus, li uma parte que se comunica totalmente com o que anda na minha cabecinha pisciana.

O primeiro livro da série de 7 que Proust escreveu trata das lembranças da infância dele e o finalzinho do primeiro capítulo tem esse trechinho abaixo, que fala de como a memória fica guardada nas sensações – no caso dele, no sabor de um pedacinho de madeleine com chá.

“Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas em algum ser inferior, em um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.

É assim com nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.”

(Eu sempre ‘encontro esse objeto’ quando vou atravessar as Américas e eles estão cortando a grama, o cheiro me leva imediatamente para o verão americano :)

Sábado estava conversando com o Filde e acho que vou escrever um caderno de memórias para ter para mim e minhas filhas, netas, bisnetas… É um pouco egocêntrico isso, né? Mas eu tenho uma curiosidade de saber mais detalhes da vida das minha avós, por exemplo. Se elas tivessem um caderno de memórias eu ia me esbaldar lendo! No final acaba sendo o registro de uma época, mesmo que não tenha valor literário algum. Além disso, minha memória é tão terrível, eu já esqueci tanta coisa que vivi que estou com medo de esquecer mais com o passar dos anos (o que invariavelmente vai acontecer).

ps: Sobre a leitura do livro em si, estou indo devagar e sempre. Ele não me puxa, não me deixa ansiosa, mas ele escreve tão lindo e sobre coisas tão pessoais e metafísicas que a leitura (frequentemente cansativa) vale muito a pena.

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