Poesia de hoje

Depois do texto (lindo!) sobre prosa da semana passada, hoje a Lu escreve aqui pro blog uma pequena compilação de poetas brasileiros contemporâneos. Acho que o post de hoje está ainda mais interessante, por tratar do mundo maravilhoso da poesia (que é tão diferente da prosa, mas vou deixar isso para ela falar, nas linhas que seguem:).

A foto que escolhemos como ilustração é a tatuagem da Lu que eu mais gosto: a pena – que escreve, que é leve, que liberta.

Enjoy ;)

Chegamos pois ao segundo post sobre literatura brasileira contemporânea, já com um pedido de desculpas: hoje teremos mais links e menos comentários meus. O que não chega a ser um problema, já que os links são todos incríveis, e assim vocês se poupam um pouco das minhas divagações.

Quem leu o post da segunda-feira passada sabe que eu estudo poesia contemporânea no mestrado, orientada pelo Paulo Henriques Britto, e por isso a minha lista de poetas vai ficar consideravelmente maior do que a minha lista de romancistas.  Mas antes eu preciso prestar um serviço aos amigos e desconhecidos que insistem em me dizer que não sabem onde encontrar/como saber quem são os tais jovens poetas brasileiros. Eles estão por todo lado, you see, e estão em lugares do tipo:

Jornal Plástico Bolha: http://jornalplasticobolha.com.br/ | http://jornalplasticobolha.blogspot.com.br/

Sou suspeita pra falar, porque eu e a Julia estávamos  lá (na PUC) quando o Lucas Viriato teve a genial ideia de começar a editar um jornal literário. Hoje, 32 edições depois, o Bolha não só é sinônimo de poesia jovem, como é também um dos jornais literários mais respeitados do país. Haja orgulho! Procurem pelo jornal impresso nas melhores livrarias do Rio e em pontos estratégicos em Minas, São Paulo e Espírito Santo. Pra quem mora no Rio e gosta de ver poesia ao vivo, o mesmo Lucas está organizando o Labirinto Poético, que acontece uma vez por mês no centro cultural Calouste. Acompanhem pela página no facebook.

Revista Minotauro: https://www.facebook.com/minotauro.revista | https://twitter.com/rvst_minotauro

Conheci a Minotauro não faz muito tempo, e me apaixonei pelo projeto gráfico soturno e pela proposta de misturar poesia contemporânea de qualidade a traduções de poetas já consagrados, como Philip Larkin e E. E. Cummings. Há ainda muita arte visual e fotografias belíssimas. Atentem para o próximo lançamento.

Revista Lado7: http://www.7letras.com.br/lado7.html

A 7Letras é a editora brasileira que mais se dedica a publicar jovens poetas, então fiquei feliz quando começaram a publicar a Lado7, que além de ser super bem editada ainda tem um conteúdo online bem legal. Clicando em qualquer um dos três volumes no site acima você é redirecionado para uma página com os poemas em áudio, lidos por seus autores. Lindo demais.

Modo de Usar & Co: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/

A Modo de Usar & Co é organizada por três poetas que admiro muitíssimo: Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck. Os três batem ponto na minha dissertação, inclusive, porque trabalham com mais de uma língua além do português. Abre parênteses: essa seria uma boa hora pra dizer qual é o meu recorte da poesia contemporânea no mestrado. Estudo os poetas publicados de 2000 em diante que misturam outra língua ao português em seus poemas. Fecha parênteses. O blog da revista é um mar de coisas incríveis. O projeto que está em destaque agora, intitulado “Empreste sua voz a um poeta morto”, traz jovens poetas lendo os que já se foram, e é bem bonito também. Acho muito legal essa preocupação em ser multimídia, e em utilizar todo o potencial da web. A revista em papel pode ser comprada na livraria mais bonita da cidade (do Rio), a.k.a. Berinjela.

Recentemente também saiu essa matéria, “Uma aposta contra o tempo”, que eu achei muito precisa. Acompanham o pequeno ensaio dez poemas de dez jovens autores, todos muito bacanas.

Passada essa primeira leva de links, acho que vale explicar de onde vem esse meu interesse tão grande por poesia contemporânea. Eu não entrei na PUC amante de poesia, na verdade tinha lido pouquíssimo. Gostava dos sonetos de Shakespeare, gostava de Drummond, de Pessoa – e ficava mais ou menos nisso aí. Acontece que a possibilidade de reconhecer-se no outro talvez seja a coisa mais bonita que a literatura proporciona. Pelo menos pra mim, é assim que as coisas funcionam – não que não me passe pela cabeça ser a heroína de um romance do século XIX, essa é outra delícia da literatura, mas o objeto que me emociona, de maneira muito egoísta, será sempre aquele que me reflete. Tudo isso para dizer que foi apenas quando comecei a ler poetas não muito mais velhos do que eu que percebi ser possível emocionar-me com poesia. E quanto mais diagnósticos apocalípticos me aparecem – a poesia contemporânea é constantemente definida por aquilo que deixou de fazer (dizem por aí que perdeu o verso, o metro, o rigor, a rebeldia, a força) – mais eu acho que essa heterogeneidade do cenário atual é produtiva, e mais eu gosto de ler meus contemporâneos.

Sim não temos mais vanguardas e sim não temos mais escolas bem definidas, mas a liberdade de escolha e a possibilidade de conversa com a tradição estão longe de caracterizar uma geração “frívola”, como faz crer a crítica Iumna Maria Simon nesse artigo aqui, publicado na Piauí. Recomendo muito a leitura, porque a Iumna é uma excelente crítica, e lê muito bem a conjuntura atual da poesia contemporânea. A questão é que para ela esse é o diagnóstico de um paciente terminal, enquanto eu acredito que ele esteja muito bem, obrigada.

Mas vocês querem ler poemas, certo? Certo, vamos lá. Dessa vez não vai ser possível escrever muito sobre cada autor, senão vocês realmente me abandonariam no meio do caminho, mas o que importa é que aí está a lista, e aí estão os poemas. Todos os poemas reproduzidos aqui foram retirados dos blogs dos próprios autores, à exceção de “Bizarre love triangle”, da Ana B., e “Um épico”, de Domingos Guimaraens, que foram retirados do site do Jornal Plástico Bolha, e ainda do “Intervalo comercial entre duas comédias”, de Victor Heringer, que foi publicado na Revista Modo de Usar & Co.

Alice Sant’Anna | http://adobradura.blogspot.com.br/ | Dobradura (2008), 7Letras

um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

Angélica Freitas | http://loop.blogspot.com.br/ | Rilke Shake (2007), Cosac Naify

rilke shake

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga

nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe

 Ana B. | Impublicáveis (2011), Móbile

Bizarre love triangle

Com delicadeza ela insistia meu amor
Amanhã não tem futuro
Mas se andassem muito apressados talvez tropeçassem
Se andássemos trôpegos
Ele queria um plano perfeito filmado por Tarkovsky.
A terceira pessoa impõe disfarces.

Ana Guadalupe | http://welcomehomeroxy.interbarney.com/ | Relógio de pulso (2011), 7Letras

Quando cortam a internet

quando cortam a internet
coisas absurdas acontecem
mas não sem a tentativa de refresh
e do refresco de cogitar antes
um lapso passageiro
raios
insetos no aparelho

quando a página some
levando embora um link que se perderá
pra sempre, é aí que uma coceira aparece
então descobre-se que o eu lírico
carregava meses de urticária
ou brotoejas
ou micose da pior espécie

quando ninguém mais digita palavra
nenhuma, nosso herói ou heroína
se levanta com tontura pra ir à esquina
descobre árvores inesperadas
na sacada, quatro ou cinco
parentes desacordados
na escada de casa

Augusto de Guimaraens Cavalcanti | http://www.augustoazul.blogspot.com.br/ | Poemas para se ler ao meio dia (2006), 7Letras; Amoramérica (2008), 7Letras [em parceria com Domingos Guimaraens e Mariano Marovatto – Os sete novos]; Os tigres cravaram as garras no horizonte (2010), Circuito.

lullaby

flor ausente
mar em carne viva
seu jeito anjo exterminadorpalavras somem pelos guardanapos
janelas se desfolham como bandeiras
olhos transbordam pelas pétalas dos teus pelos
pratos e copos se quebram sem nenhum escândaloacompanho suas pegadas como se fossem cidades
todas as manhãs jogo minhas asas mortas no mar

Bruna Beber | http://www.avoadinossauro.org/ | A fila sem fim dos demônios descontentes (2006), 7Letras; Balés (2009), Língua Geral; Rapapés e apupos (2012), 7Letras.

dirigível do amor

mandei
on monday
morning
alice morder
as hélices
do meu teco-teco
ela sorriu estilhaçada
de frio e vento
batendo na cara
mas preferiu aterrissar girando a saia
mostrando a calcinha
pros passantes.

Pro Chacal

Domingos Guimaraens | http://www.ossetenovos.org/os_sete_novos.php# | A gema do sol (2006), 7Letras | Amoramérica (2008), 7Letras [em parceria com Augusto de Guimaraens  Cavalcanti e Mariano Marovatto – Os sete novos].

Cês clicam aqui? É que esse é grande, mas é imperdível!

Gregório Duvivier | http://ruacaiomario.blogspot.com.br/ | A partir de amanhã eu juro que vai ser agora (2008), 7Letras.

açaí açaí – você conhece o waldo – olha
o mate – waldo que waldo – é o melhor
mousse do rio de janeiro – agora joga
um spray nas minhas costas – conheço
um waldo que morreu – meu mousse
é o melhor – o waldo não morreu quem
morreu foi o walter foi o waldo – empada
praiana foi o walter – sabe que – açaí – no
fundo – açaí – eu acho que o nome dele
era – olha – waldo mesmo – o mate – porra
tu – guara plus – tacou spray – guara plus –
no meu olho – o waldo – mate – ele mesmo
então morreu – olha o mate – para morrer
meu amigo – mate – basta estar vivo.

Ismar Tirelli Neto | http://juventudevulcabras.wordpress.com/ | Synchronoscopio (2008), 7Letras; Ramerrão (2011), 7Letras.

As Guardas

Jamais pensei fosse ouvi-lo falar dos riscos.
Sopesasse um canto escuro do palco, as coxias, o que
pretenderemos com o velho piano da casa?
Agora, a coisa feita, não me parte nada. Calharia
uma nudez mais verde ’22 envios
ao beach xamanismo de ’71? Disse a Bia
melhor que todos, “crianças comportadas”.
Assento o queixo no cabo do guarda-chuva, atento
a uns estalos disfóricos atrás da arquibancada. Tradição.

Mariano Marovatto |http://www.marovatto.org/ | Primeiro Vôo (2006), 7Letras | Amoramérica (2008), 7Letras [em parceria com Augusto de Guimaraens  Cavalcanti e Domingos Guimaraens – Os sete novos].

Macao

Proteja, São Tiago da Barra
o que nos restou de Ming
antes dos jogos de azar
antes da pena
de Camões
derramar os primeiros versos
sobre o solo
fazendo brotar nossa última
flor de lótus.

Marília Garcia| http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/ | http://revistamododeusar.blogspot.com.br | Encontro às cegas (2001), Moby Dick; 20 poemas para o seu walkman (2007), Cosac Naify.

Vou pedir pra vocês clicarem de novo, porque é lindo, é longo e tem vídeo pra acompanhar.

Victor Heringer |http://automatografo.org/ | Automatógrafo (2011), 7Letras.

Intervalo comercial entre duas comédias

sugiro que por trinta segundos você esteja alegre.
faz calor, mas não importa.
há um idílio, lido lento.
a tevê anda desligada
há muito
você não se importa.
há vinhedos pelo mundo, pelas terras deste mundo
e os povos são todos você.
há o quieto das tréguas
das violências
só as cigarras
cantando porque morrem também.

já azedou
o leite na geladeira?
está devidamente servida
a mulher que gosta de carinhos espontâneos?
estão as nações todas
confortáveis dentro de suas fronteiras?
o que está para acontecer

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