Prosa de hoje

Vocês conhecem literatura brasileira contemporânea? Sempre que acabo um livro e estou decidindo qual será o próximo, penso em como eu queria ler um brasileiro, mas mais recente. O resultado é que sempre me bate uma pequena vergonha de ser formada em Letras e não conhecer a literatura produzida no meu próprio país, no meu próprio tempo.

Pensando nisso, pedi para a minha amiga Lu (que é do nosso grupo de leitura!) escrever um pouco aqui no blog sobre o assunto, com indicações para conhecermos um pouco melhor o que se escreve hoje aqui na terrinha(ona). Atendendo a meu pedido, ela escreveu esse texto maravilhoso com dicas preciosíssimas. Meu conselho é: leiam até o final. Ela me pediu para editá-lo (para não ficar muito extenso), mas não tive coragem, não deu para tirar nem uma palavrinha.

Espero que vocês gostem e aproveitem. Lu, muito obrigada! O post ficou lindo, like yourself.

Queridos leitores da Julia, isto é uma armadilha. Meu nome é Luiza e a Ju me emprestou este espaço pra escrever um pouco (ou um muito, eu tendo a divagar) sobre literatura brasileira contemporânea. Não corram para as montanhas ainda, eu prometo que vocês vão gostar. Antes de qualquer coisa, preciso convencer vocês de que entendo (minimamente) do assunto. Eu e a Julia fizemos letras juntas na PUC, mas com alguns focos diferentes. Enquanto a Ju foi se interessar por tradução só mais pro fim do curso, eu já entrei sabendo que queria traduzir literatura, de preferência contemporânea. E eu também já sofria dessa estranha mania de grandeza/egotrip que é querer ser escritor, e sobre isso vou dizer apenas que o link é esse aqui.

A graduação passou, eu me apaixonei pela academia e resolvi ficar, então agora estou estudando poesia contemporânea no mestrado, sob orientação do Paulo Henriques Britto, que apesar de não ser tão novo quanto os outros autores sobre os quais vou escrever aqui, ainda produz muito, e é um dos poetas mais respeitados do Brasil. Falo mais do Paulo no post que vem (ah sim, vocês terão de me aturar por dois posts – este primeiro é só para prosa, o próximo será dedicado à poesia). Vou adiantar apenas (não me aguentei) que alguns poemas do recém lançado (e lindo, lindo e doído) Formas do nada (Cia das Letras, 2012) podem ser lidos aqui.

Alas, os jovens autores. Antes disso só um disclaimer (eu juro que chego lá): fazer listas é partir do pressuposto de que existe um lado de dentro (da lista) e um lado de fora (idem idem). Ou seja, listas são coisas finitas, e são feitas de acordo com um critério. O meu critério, hoje, aqui para o blog da minha amiga, tem que ser totalmente pessoal . Talvez se estivesse escrevendo para um portal de literatura, ou para a minha dissertação, usasse outros critérios. Mas aqui só entram os meus xódos, os que me fizeram chorar, morrer de ódio, de dor ou de paixão. Vai ficar um monte de gente boa de fora, mas as listas são assim, e aliás eu duvido que alguém vá se importar com a minha opinião. Geral se importou com a opinião da Granta, que lançou uma lista com os 20 melhores autores brasileiros com menos de 40 anos agora na última FLIP, e sobre isso a internet está cheia de opiniões. Rolou até um blog com os textos dos “rejeitados”, vejam só.

Mas ok, nomes. O primeiro autor realmente contemporâneo que tirou meu centro de gravidade e me fez querer pensar a literatura contemporânea foi o João Paulo Cuenca, que não só está na lista da Granta como também virou um tipo de exemplo protocolar do que é ser um jovem autor hoje no Brasil – foi descoberto escrevendo  num blog, está presente nas mídias sociais e soube se infiltrar na mídia tradicional (já foi colunista do O Globo e dá pinta no Studio I, da Globonews, além de ter sido responsável pelo roteiro do badalado “Afinal, o que querem as mulheres”, junto com Michel Malamed e Cecilia Giannetti, também para a Globo). Cuenca tem três romances publicados: Corpo presente, pela Planeta (2002); O dia Mastroianni, pela Agir (2007) e O único final feliz para uma história de amor é um acidente, pela Cia das Letras (2010). Este último, que inclusive é o meu preferido dos três, faz parte da coleção Amores Expressos, que mandou autores brasileiros para diversas partes do mundo, para que escrevessem sobre amor. Essa foi outra lista de deu um tititi danado, mas o importante é que o Cuenca foi pro Japão, que desde Encontros e desencontros se transformou no meu país dos sonhos, e o blog que ele escreveu (todos os autores que participaram do Amores Expressos tinham como obrigação manter um blog de viagem) é incrível, sincero e ilustra tão bem o conceito do ser estrangeiro, que me é muito caro. Este é o meu post preferido do blog, mas vá lendo aos poucos, depois leia o livro, e veja sua vontade de largar tudo e ir pro Japão ler todos os Murakamis chegar a níveis incontroláveis. Das coisas que me comovem na obra do Cuenca posso citar assim rapidamente o talento para se misturar com as cidades sobre as quais escreve, a facilidade para escrever diálogos absurdos e surreais e os personagens com um bom humor sempre muito ácido. Faltou dizer que ele acabou de lançar um livro de não ficção, intitulado A última madrugada (Leya, 2012), que reúne as crônicas publicadas no O Globo, além de algumas inéditos.

E já que estamos falando do Amores Expressos, o segundo nome da minha lista também é uma escolha óbvia, e também está na lista da Granta. O primeiro romance do Daniel Galera que li foi justamente o que ele escreveu para o projeto, e chama-se Cordilheira. Galera foi parar em Buenos Aires, e a personagem que narra a história em primeira pessoa é uma romancista brasileira que, desorientada após o término de um relacionamento e o suicídio de uma amiga, resolve se refugiar na capital argentina. Atentem para o fato de que a narradora é uma mulher. Durante um bom tempo quis matar o autor por ousar ser tão crível na voz de uma mulher. Foi desgastante ler o romance, que no fim das contas é belíssimo, porque toda vez que me identificava muito com algo que a narradora dizia, entrava em parafuso porque não admitia que um cara apenas um pouco mais velho que eu tivesse escrito aquilo. Odiava que me entendesse tanto. Aqui no blog da Cia das Letras ele fala um pouco sobre isso. Outro romance excelente do Galera é o Até o dia em que o cão morreu, que foi adaptado para o cinema pelo genial Beto Brant, com o título de Cão sem dono.

O teceiro nome da minha lista não está na Granta porque tem mais de 40 (anos) – estão vendo como  listas são coisinhas arriscadas – , mastalvez seja a maior unanimidade quando se fala de literatura brasileira contemporânea. Paulo Scott também escreve poesia, e como escreve, mas vai ficar na minha lista de prosa porque a primeira coisa que li dele foi o Ainda Orangotangos (Livros do Mal, 2003), que é um livro de contos absolutamente imperdível, e muito representativo desta geração. Virou filme também, dirigido pelo Gustavo Spolidoro. Livrasso, filmasso. Scott tem uma porção de livros publicados.  Também amo o Voláteis (Objetiva, 2005), e já adianto pra vocês que leremos (eu, a Ju e a Carol, no nosso grupo de leitura já mencionado aqui no blog) o Habitante irreal (Alfaguara, 2011), que foi muito muito bem criticado. Scott é do tipo maníaco que abre e fecha um blog por semana, escreve escreve escreve e depois deleta tudo,  então se você gosta de stalkear autores, divirta-se: http://pauloscott.wordpress.com, http://habitanteirreal.wordpress.com.

Daí temos a Carol Bensimon, que também está na Granta (cês já encheram o saco dessa lista, né? Não sei por que continuo mencionando, mas segue o bonde). Eu comecei a ler a Carol no blog da Cia das Letras (é um blog e tanto inclusive, todo ele, não só os textos da Bensimon). Foi identificação imediata, nem sei dizer bem por que. Daí eu li o Sinuca embaixo d’água (Cia das Letras, 2009 – um trecho aqui), e fiquei espantada com o tanto que ela escreve bem, e com a dureza do livro. A resenha que a Beatriz Resende escreveu diz tudo que eu queris dizer, então http://www.carolbensimon.com/img/sinuca_globo.jpg.

A outra mocinha da lista é uma amiga querida, que tembém fez PUC comigo e com a Julia, e tem um blog que é sucesso há anos, e que me emociona muito, sempre. O livro que nasceu do blog tem um dos melhores títulos do mundo (Sobre o tudo que transborda, Multifoco, 2009), e eu acho (acho não, eu sei) que foi a Paula Gicovate que  finalmente me deu coragem pra admitir que tudo o que eu escrevo eu escrevo sobre mim. Eu tenho uma queda forte por quem faz auto-ficção, seja na literatura ou no cinema (ou na TV – vocês estão todos assistindo Girls, da Lena Dunhan? Deviam – tem tudo a ver com a literatura da Paula, tem tudo a ver com a nossa [minha] geração).

E agora eu vou fazer uma lista de facto, porque sei que 1.500 palavras não é um tamanho aceitável para post em blog, e sei que ninguém está mais me dando atenção:

Fabrício Carpinejar http://carpinejar.blogspot.com.br/

Duda Salgado D’Almeida http://al-azurd.blogspot.com.br/

Daniel Salaroli http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/12/723287-nova+fornada+de+livros.html

Lucas Viriato (também é poeta, mas eu quis colocar aqui) http://lucasviriato.blogspot.com.br/

Miguel Del Castillo (também é poeta, mas mimimimimi) http://migueldelcastillo.tumblr.com/

Luiz Ruffato http://blogdoluizruffato.blogspot.com.br/

E aí, vocês, já leram alguém da minha lista? Querem me esganar porque cortei alguém que vocês adoram da minha lista? Reclamem já – eu adoro um debate :)

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8 thoughts on “Prosa de hoje

  1. Sempre que vou escolher o próximo livro da lista para ler, acabo puxando algum clássico que ainda não li, geralmente de algum autor internacional. Confesso que leio bem pouca literatura brasileira contemporânea, mas por pura falta de referência mesmo, devo admitir. Gosto do Bernardo Carvalho e do João Paulo Cuenca, mas não conheço os demais autores. Preciso mudar isso.

  2. Boa Lu, gostei! Falta esse incentivo aos novos autores mesmo :)

    Na maioria das vezes acontece o que a Camila falou aí em cima.

    • Pois é, é o caso da Camila e o meu caso também! Eu conheço mais literatura contemporânea estrangeira que brasileira, uma vergonha.

  3. Vou cobrar o “dever de casa” de todo mundo, ainda que dever de caso seja uma expressão horrível pra falar do assunto, já que lembra obrigação. Modéstia a parte, na minha lista só tem livro incrível.

  4. Adorei a lista, Lu!!!! Eu sou uma indisciplinada total, então nem sei se posso dizer que tenho um padrão de leitura, mas confesso que (muito por influência da Jujubs) eu também tenho ficado mais na internacional.

    Alguns comentários:

    Engraçado como essa questão do blog e da escrita cibernética estão relacionados a essa nova produção nacional, né? Devem existir 300 mil trabalhos sobre isso, mas enfim, acho realmente interessante de se pensar.

    O único livro que eu li do Ruffato foi o mais famoso, acho, “Eles eram muitos cavalos”, cujo título é maravilhoso, mas eu confesso que não é meu tipo de literatura preferido. Eu até gosto de leituras diferentes sobre cidades, mas da forma como ele fez, definitivamente não me agrada.

    Quanto ao resto, acho que só li Carpinejar e a Paulinha, claro. Mas farei o dever de casa, prometo. :)))

  5. Manu, uma amiga minha do mestrado está escrevendo justamente sobre o que ela chama de “autor 24 horas”, sobre essas personas que os autores precisam inventar pra viver e sobreviver no mundo virtual. Ela argumenta que estamos numa fase de “renascimento” do autor, depois da morte proposta pelo Barthes. Acho muito legal pensar nessas coisas.

    Sobre o trabalho do Ruffato, realmente talvez não seja uma delícia de ler, mas acho o “Eles era muitos cavalos” muito bom – se não me emociona pelo lirismo, que realmente não há, me emociona pelos temas, pelas pequenezas, os detalhes daquela coisa toda que ele vai juntando.

    Depois me conta que mais cê leu.

    :)

  6. Lully se eu deixar você acaba com a minha fila. Texto adorável e quantos links dignos! Lá se vão meus planos de ver um filme hoje…Vou levar seu texto ao meu grupo de leitores, nós discutimos exatamente isso sexta. E nos demos conta como a Manu, que não sabemos da produção nacional, e pior nós só estávamos discutindo literatura estrangeira.

    Obrigado pela Luz!

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